segunda-feira, 17 de agosto de 2015

História e Literatura sim.

 
Pintura de João Beja.



 Cansei de explicar que não curso letras. "Mas porque sua monografia é sobre literatura e Fernando Pessoa?". Ora, porque literatura é história, e cada escola literária é um reflexo dos acontecimentos do seu próprio tempo. Por isso, como futuro historiador (olha que chiqueza) eu tenho o direito e dever de estudar qualquer grande ou pequeno acontecimento histórico. Claro, que dentro das medidas possíveis para meu mediano nível intelectual e experiência. E também porque eu sempre fui louco por literatura. Leio e interpreto poemas desde que me conheço por gente, por influência de minha mãe, amante de livros e professora de português. Ah, mas não é tão fácil assim, não é? Gostar não é tudo, é necessário enfrentar provação social. Ser o adolescente que gostava de Renascimento e 3ª geração Modernista e não se importava com o último álbum lançado pela banda X, não é algo muito interessante. Bem como acreditarem que sua afinidade com poemas lhe transformam em alguém fraco e automaticamente emotivo, e pior, como se isso fosse ruim.
  Seguindo essa linha de raciocínio, eu venho tentando compreender a importância do poeta português Fernando Pessoa. Definido como modernista, mas sempre a frente do seu tempo, Pessoa, se tornou um ícone literário pela genialidade de suas poesias, e pela criação dos heterônimos: Ricardo Reis (estoico árcade), Alvaro de Campos (Engenheiro influenciado pelo futurismo) e Alberto Caeiro (mestre dos outros dois e do próprio Fernando Pessoa). O que fez do pai da heteronimia conhecido em sua época foi a criação da Orpheu; revista modernista que deu as diretrizes para movimento vanguardista na Península Ibérica, e Brasil. Lembram agora quem é o rapaz? Vamos prosseguir.
  Dentro do mundo acadêmico, como muitos já devem ter notado antes de mim, existe uma enorme segregação de temas e assuntos designados a cursos específicos. No meu caso, por exemplo, nem sempre a ideia de um tema destinado teoricamente a Letras foi bem aceito entre profissionais e estudantes da cadeira de história. Ao mesmo tempo que professores me encorajavam, outros não se mostravam dispostos a trabalhar com algo ficcional como fonte documental. Assim, aproveito pra agradecer desde já aqueles que me apoiaram. 
Stencil de Jef Aerosol.
  O fato é que o mundo acadêmico é pretensioso, arrogante e vive uma eterna briga de egos entre nossos cursos, faculdades, e até entre professores (Doutores e mestres) e alunos. Neste último embate, professores possuem um grande acúmulo intelectual devidamente conquistado pelos anos de experiencia e dedicação, o problema é a auto insinuação de semideuses que alguns invocam pra si mesmos, e que transmitem a alunos deslumbrados. Já alguns estudantes esquecem-se que existe, na maioria dos casos, uma grande diferença na experiência de seus mestres e de suas próprias. Por Deus, estamos na universidade, não seria eu a dizer que devemos aceitar qualquer posição sem nenhum questionamento, afinal metade de nosso aprendizado no ensino superior está além da sala de aula. Mas convém diminuir sua própria prepotência e reconhecer que você não nasceu sabendo tudo. 
 Pois bem, dentro dessas birras diversas, não é fácil ser um historiador que lerá mais Fernando Pessoa e Antonio Cândido, do que Hobsbawn e Marc Bloch. Claro que o entendimento de uma época e sociedade, depende e muito das leituras e domínio das mesmas que você vai possuir. Sua bibliografia historiográfica será essencial, mas mesmo estes, estão aquém das expectativas dos grandes pesquisadores dos movimentos sociais. "Porque pesquisar arte não é exatamente entender o mundo, pesquisar arte é entender determinados mundos em volta da arte", pensa o tradicionalista. Mas eu não consigo diminuir Nicolau Sevcenko, grande historiador cultural brasileiro que escreveu "Literatura Como Missão" (maravilhoso olhar a cerca das obras de Lima Barreto e Euclides da Cunha na virada do século XIX e XX), e ainda fez uma maravilhosa tradução de "Alice no País das Maravilhas" de Lewis Carrol. E muitos mestres seriam devidamente mal falados se o fizessem, porém, no fundo eles acreditam que o prestigio de historiador social é maior que o olhar de Sevcenko sobre a primeira republica. 
  Portanto, onde está essa liberdade de pensamento e questionamento que tanto nos infligem no campo universitário? Até onde as ciência humanas são, realmente, tão livres e conscientes de sua posição social? Seremos nós aqueles em princípios da Revolução Francesa que guilhotinavam, e terminavam guilhotinados?

Por Caio Terciotti - Peguem leve, faz tempo que não escrevo.

"Sempre com vontade de mijar!"

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